{"id":20938,"date":"2017-04-23T11:08:23","date_gmt":"2017-04-23T14:08:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.kblo.com.br\/blog\/?p=20938"},"modified":"2017-04-23T11:08:33","modified_gmt":"2017-04-23T14:08:33","slug":"chico-latim-nosso-cinema-paradiso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.kblo.com.br\/blog\/chico-latim-nosso-cinema-paradiso\/","title":{"rendered":"Chico Latim, nosso Cinema Paradiso"},"content":{"rendered":"<p>1) Onde tudo come\u00e7ou<br \/>\nEm Peruibe, l\u00e1 pelos anos 1960, na empoeirada esquina das avenidas S\u00e3o Jo\u00e3o e Padre Anchieta, eu e o Moacir de Castro Moura come\u00e7\u00e1vamos a carregar uma placa indicando nome do filme e o epis\u00f3dio de uma s\u00e9rie que o cinema do Seu Chico iria passar naquele dia.<br \/>\nO nome do filme era Rosemary, o primeiro musical que assisti na vida (que ali\u00e1s todos os meus amigos da \u00e9poca detestaram) e o epis\u00f3dio talvez fosse do Homem Foguete, mas o que importava isso? Quase nada, pois t\u00ednhamos mesmo era que cumprir a tarefa do amigo de levar a placa at\u00e9 a esta\u00e7\u00e3o, que era lida por todos os que esperavam o trem ou que dele desembarcavam. A tarefa era mais do Moacir que minha, mas aproveitando que tinha que pegar o trem todos os dias, eu acompanhava o amigo quase sempre, pois ele sim, como filho do seu Chico, era o titular daquele trabalho.<\/p>\n<p>2) O elenco de artistas<br \/>\nEra s\u00f3 chegarmos com o cartaz que muita gente rodeava a placa para ler a programa\u00e7\u00e3o do dia: Dito Pipa, Odair Castor, Guaxica, Lua Cheia, Mula Manca, Helio Borges, Cambacica, Goxo, Gumercindo Pel\u00e9, Lalau, Carlico, Waluse, Neguinho, Toninho Louren\u00e7o, Jair Mendes, Deva, Deja, Valdeci, Popola, Manequinho, Jos\u00e9 Carlos, Z\u00e9 (do seu Darci e dona Conta), Lenaldo Xavier, Ildo, Orlando Castro, Manina, Leones, Z\u00e9 Ricardo, Jorge Vitoriano, Vicente Malabucha, Roque Inoc\u00eancio, Paulo Cordeiro, Zuca, Gazo, Beto do Guara\u00fa e tantos outros. S\u00f3 meninos? N\u00e3o, muitas meninas tamb\u00e9m, s\u00f3 que sem apelidos, por favor, Leonor Rossi, Rute, Vilma, minha irm\u00e3 Tomiko, Rose do seu Ol\u00edmpio, as insepar\u00e1veis M\u00e9rcia e Cl\u00e9lia, Aracene, Magda.<br \/>\nBem, o par\u00e1grafo anterior \u00e9 uma ilus\u00e3o minha, escrito apenas para homenagear e lembrar de muitos amigos da \u00e9poca, sem cronologia, pois a mem\u00f3ria j\u00e1 est\u00e1 falha, pelo que pe\u00e7o desculpas a outros que agora momentaneamente n\u00e3o me lembro. Exemplo disso foram os que compartilharam os bancos escolares desde o in\u00edcio, com Dona Let\u00edcia (esposa do seu Itagiba, da Funai), at\u00e9 a Dona Nelsi, passando pelas professoras Nerucha e Jacyra, dos quais me fogem o nome.<br \/>\nE o trem, hein? Viaj\u00e1vamos todos os dias para Pedro de Toledo para cursar o ginasial que ainda n\u00e3o tinha dado as caras em Peru\u00edbe.<\/p>\n<p>3) A produ\u00e7\u00e3o<br \/>\nVoltando \u00e0 placa, carreg\u00e1-la da esquina da S\u00e3o Jo\u00e3o com a Padre Anchieta at\u00e9 a esta\u00e7\u00e3o foi uma das minhas \u00fanicas incurs\u00f5es no mundo da propaganda, e se isso garantia um ingresso no cinema, o esfor\u00e7o deste carregamento me fez desistir da \u00e1rea da propaganda, hoje tamb\u00e9m conhecido com marketing. Talvez o mais indicado para isso fosse o Roberto Ferreira, que foi trabalhar na \u00e1rea e agora curte o seu Guara\u00fa como poucos.<\/p>\n<p>4) O roteiro<br \/>\nMas vamos nos fixar no cinema.<br \/>\nComandado pelo seu Chico Latim, que foi, desde sempre, o maior irradiador de cultura da minha querida cidade natal, Peruibe, e foi este singelo comandante do cinema que proporcionou o contacto dos habitantes da cidade com todo o tipo de cultura existente na \u00e9poca, desde os dramas, as com\u00e9dias, os bang bang, as hist\u00f3rias policiais e de terror e tantos outros tipos de filme que retratavam um modo de ser e viver totalmente diferente do nosso, mas que nos enchiam de conhecimento, pois sab\u00edamos como se vestir se um dia fossemos visitar o velho oeste, ou que tipo de arma t\u00ednhamos que usar se fossemos policiais de cidades estrangeiras, uma delas conhecida como Nova Iorque, acho que era isso, ou ent\u00e3o, se nos transform\u00e1ssemos em \u00edndios pele-vermelhas, que cavalo ter\u00edamos que usar, de prefer\u00eancia malhados e sem selas, \u00e9 claro e muito importante, como nadar no rio infestado de crocodilos como bem fazia o Tarz\u00e3. Enfim, os filmes que o seu Chico Latim exibia nos proporcionava sonhar, imaginar, voar daquela pequena Peruibe para outros ares pelo mundo.<br \/>\nUm dia, muitos de n\u00f3s fizemos isso, indo para S\u00e3o Paulo, Santos, e at\u00e9 para cidades americanas, algumas retratadas nos filmes, como ocorreu com o Odair Choquito e o Keko, mas com toda certeza, jamais se esquecendo de Peruibe.<\/p>\n<p>5) O filme<br \/>\nPara quem assitiu o filme, muito antes do Cinema Paradiso, n\u00f3s, de Peru\u00edbe, t\u00ednhamos nosso Alfredo, nosso Tot\u00f3, nossa Giancaldo, tal qual retratado neste brilhante filme. Acredito que s\u00f3 faltava a m\u00fasica genial do Ennio Morricone, mas a\u00ed era pedir demais. Content\u00e1vamos em ouvir as m\u00fasicas tocadas no carnaval pelo Seu \u00c1lvaro, trombonista de primeira, seu Geraldo (bombardinista) e pelos demais m\u00fasicos da cidade, que antecederam a famosa banda comandada pelo maestro Vicente Basile. Nesta fase, brilharam Luiz Crica (trumpete), Betinho (Sax), Fofinho (o \u00fanico tocador de requinta que conheci), e outros tantos talentos musicais. Todos n\u00f3s t\u00ednhamos um pouco de Tot\u00f3, pois \u00e9ramos fissurados e encantados pelo cinema, mas s\u00f3 o seu Chico era o ator principal.<br \/>\nAssim, o Cinema Paradiso sempre nos faz lembrar do seu Chico Latim e de Peruibe, e hoje talvez assobiando as m\u00fasicas tema do senhor Morricone, lindas por sinal, temos sempre tendo em mente que Giancaldo jamais ser\u00e1 a nossa Peruibe, pois esta \u00e9 inigual\u00e1vel, mesmo porque aquela era uma cidade fict\u00edcia e a nossa, muito real e sempre presente em toda a nossa vida.<\/p>\n<p>6) A cr\u00edtica<br \/>\nMeus pais, conhecidos como seu Antonio Sato e dona Helena, sempre que se referiam ao seu Chico Latim e \u00e0 Dona Cabocla, usavam a express\u00e3o: \u201cse tem algu\u00e9m honesto e digno por aqui, estes s\u00e3o seu Chico Latim e a Dona Cabocla\u201d. Por serem os meus pais muito r\u00edgidos no quesito dignidade e honestidade, o depoimento deles retrata o que foram realmente os queridos pais da cultura de Peru\u00edbe, muito antes de todas as formas de entretenimento que conhecemos hoje.<\/p>\n<p>7) The end<br \/>\nEm 1965, quando deixei minha Peruibe para estudar em S\u00e3o Paulo, embarquei no \u00f4nibus da Breda no bar Itatins, do seu Garcia, que funcionava como esta\u00e7\u00e3o rodovi\u00e1ria e ao subir a Av.S\u00e3o Jo\u00e3o, virando \u00e0 direita na padre Anchieta, ainda a mesma esquina empoeirada, avistei o pr\u00e9dio do cinema, acho que era Cine Castro ou Cine Peruibe, e foi uma das \u00faltimas lembran\u00e7as arquitet\u00f4nicas que se fixaram na minha mente. Jamais imaginaria que seria um s\u00edmbolo para o resto da minha vida.<br \/>\nNos anos 90, assistindo Cinema Paradiso, todas as lembran\u00e7as voltaram e imposs\u00edvel n\u00e3o comparar a fic\u00e7\u00e3o com o que foi a nossa realidade, \u00e0s vezes ilus\u00f3ria, comandada pelo inesquec\u00edvel Chico Latim.<br \/>\nObrigado, seu Chico Latim, o Oscar vai para o senhor. Parab\u00e9ns.<\/p>\n<p>Shogoro Sato.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1) Onde tudo come\u00e7ou Em Peruibe, l\u00e1 pelos anos 1960, na empoeirada esquina das avenidas&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20939,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[94,138],"tags":[140,139,141],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.kblo.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20938"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.kblo.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.kblo.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.kblo.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.kblo.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20938"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.kblo.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20938\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20940,"href":"https:\/\/www.kblo.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20938\/revisions\/20940"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.kblo.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20939"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.kblo.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20938"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.kblo.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20938"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.kblo.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20938"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}